O início do blues

autor: Junior da Violla

O blues nasceu dos cantos de trabalho nas plantações de algodão no delta do rio Mississipi na época da Guerra da Secessão americana. A música que os negros cantavam enquanto trabalhavam nas plantações aliviavam o trabalho pesado e davam ritmo ao mesmo, tornando o mesmo mais eficiente. Os negros dos EUA eram proibidos de usar  tambores por conta do Black Code aplicado pelos plantadores do sul. Com isso alguns dos instrumentos musicais usados pelos negros da época seria o banjor ( um ancestral do banjo ), o fiddle ( uma espécie de violino irlandês semelhante a nossa rabeca no Brasil ). Não há menção do violão na música americana desta época pois tal instrumento só faria sua aparição nos EUA no início do século XX, apesar de ja termos desde 1833 a fabricação deste por fábricas como a Martin.
     Além do canto de trabalho, denominado "work-songs", os plantadores escravagistas do sul resolveram evangelizar seus escravos, tornando o canto religioso um dos meios de expressão privilegiado do gênio africano. Com sua enorme capacidade de improvisação os negros transformaram os hinos batistas e metodistas em cantos que misturavam as origens africanas e européias e que se espalharam no mundo inteiro sob o nome de negro-spirituals. Somando-se a isso o fim da escravidão, a segregação racial muito forte, o nascimento de uma cultura negro-americana e de seitas religiosas negras como a igreja pentecostal que em algum lugar no final do século XIX, o fazendeiro solitário que dedilha seus hollers, o prisioneiros que perpetua os sotaques das work-songs do tempo da escravidão, o pregador que inflama as almas dos fiéis com a ajuda da sua guitarra, o pianista de casa de jogo que martela suas teclas para que a clientela dançasse e o cantor itinerante que dissemina suas baladas criaram o blues.
     A primeira fase do gênero é a do blues rural ou blues do delta que se desenvolveu na região do Mississipi e agrupava diversos estados como Mississipi, Arkansas, sul do Tennessee, Alabama e uma parte de Luisiana. Devido á segregação e ao racismo, os negros, que formavam a maioria da população, aí viveram em um estado de isolamento muito pronunciado, o que favoreceu o surgimento de uma cultura muito particular. O blues que surgiu nesta região possui uma forte influência africana: pouca melodia mas um ritmo sincopado, riffs repetitivos, canto veemente e tenso, frequentemente recitativo, com o uso frequente do falsete. A guitarra ja popular, é muito usada nesta primeira fase do blues, época em que ainda não havia surgido a guitarra elétrica. Com o violão usado em afinações abertas de sol ou ré, o uso do bottleneck ( um gargalo de vidro ) também é bastante popular. O blues do delta também se caracteriza por uma ausência aparente de lógica nas progressões dos versos e das métricas do fraseado. É bastante comum encontrar formulas de compassos em que uma parte esta a 4 tempos e outra a 5 logo a frente.
 
O blues do norte: Classic blues singers
 
     O quadro começa a se alterar com a descoberta do blues pela indústria fonográfica. O rápido desenvolvimento do mercado de gramofones portáteis e portanto do mercado de discos após a Primeira Guerra Mundial, fez com que gravadoras como a Victor, Decca, Columbia, Paramount e Okeh que possuiam estúdios em algumas cidades do norte a tentar ampliar sua produção, até então reservada aos amantes da música erudita e popular. Chicago e o bairro negro do Harlem em Nova Iorque ja contavam com uma importante população negra nesta época, engrossada ainda pela economia de guerra. Algumas famílias ja instaladas há muito tempo formavam uma espécie de burguesia local que frequentava assiduamente os cabarés aonde se tocava os blues do sul, tocado ou cantado em contexto de jazz, afirmando sua urbanidade. Desta forma em 1920 o diretor de orquestra negro Perry Bradford, certo do público que tinha naquela região conseguiu convencer o produtor de discos Okeh Fred Hager a permitir que um negro gravasse em seu estúdio. E assim uma cantora popular do Harlen, Mamie Smith  gravou o primeiro blues em disco, o clássico Crazy Blues que obviamente se tornou sucesso imediato, vendendo até 75 mil cópias por semana. Rapidamente outras empresas de disco viram a grande oportunidade de lucrar com o blues e uma infinidade de cantoras negras acompanhadas por orquestras de jazz, denominadas classic blues singers gravaram um sem número de blues. Isso fez com que as companhias criassem as race records, selos exclusivos para a comunidade negra. São algumas cantoras importantes desse período Bessie Smith, Gertrude Ma Rainey, Victoria Spivey, Ida Cox, Lucille Hegamin, EdithWilson, Rosa Handerson, Clara Smith, Sippie Wallace e Alberta Hunter.
 
O blues no delta do Mississipi
 
     A partir de 1925 o público do sul reclamava músicos que lhe fossem mais próximos, e com isso os músicos do blues do delta foram recrutados para entrar em estúdio e gravar. Estes sim foram os primeiros a gravar o autêntico blues de raíz, o blues que ja vinha sendo tocado no sul desde o final do século XIX e não o blues orquestrado e embalado para o consumo como o blues das cantoras do norte. O blues do delta se desenvolveu muito do seu surgimento até o início dos anos 30 graças ao intercâmbio de músicos itinerantes e de músicos de outras localidades como Texas, Oklahoma, Luisiana, Carolínas e Virgínias. Os primeiros músicos rurais a gravar fizeram-no através dos comerciantes que estocavam os discos das grandes companhias e as informavam de forma precisa sobre as vendas junto ao público negro além de conhecer bem os músicos locais. A partir de 1926 as vendas dos blues rurais ja fazia frente ás cantoras de orquestra. Foi assim que equipes de caça talentos percorreram o sul com estúdios portáteis gravando uma infinidade de músicos locais. Foram grandes nomes do blues do delta os músicos Charlie Patton, Tommy Johnson, Son House, Bukka White, Skipe James, Big Joe Willians, Tommy Mac Clennan e talvez aquele que seja considerado o maior de todos, Robert Johnson ( 1911-1938 ), considerado influência maior pelos garotos inglêses da década de 50 que viria a resgatar o blues do limbo. Dessa geração viriam nomes como Eric Clapton, Mick Jaegger, Keith Richards, Peter Green, John Mayall entre muitos outros.
 
O blues na costa leste
 
     Na costa leste, região que envolve os Apalaches ( Carolinas, Virgínias, Kentucky, Tennessee do Leste e Georgia ) desenvolveu-se um blues muito particular, muito mais leve que o dramático blues do delta, se bem que as estruturas sejam as mesmas, o ritmo sincopado do delta é substituído por efeitos regulares de baixos alternados, criando uma sensação de indolência e descontração, ainda afirmada pelo virtuosismo instrumental da maior parte dos músicos que criaram um estilo de tocar muito particular, o ragtime, cuja origem longíngua talvez provenha das Ilhas Caraíbas, que prolongam a Flórida. De qualquer forma parece que o racismo e a segregação tenham sido menos fortes que no delta, criando condições de vida mais leve aos negros, o que de fato se refletia em suas músicas. Esta tese poderia ser sustentada pelo fato de ser difícil de se diferenciar os estilos de músicos brancos como Sam Mac Gee ( Depot Blues ) dos músicos negros como Blind Blake. Com isso não é de se surpreender de encontrar um repertório comum a brancos e negros nesta região, contando frequentemente uma estória inspirada livremente na tradição da balada anglo-saxônica e cujo tema central é o amor desiludido. Os solos de violão são ótimos momentos em que o músico pode demonstrar seu virtuosismo. São grandes nomes do blues do leste músicos como Blind Blake, Blind Willie McTell, Reverendo Gary Davis, Blind Boy Fuller, Blind Lemon Jefferson, Texas Alexander, Leadbelly.

O sucesso deste projeto só se dá graças ao empodeiramento feito pela iniciativa Pulsar da Curadoria Social